Daniela Risso — Psicologia & Psicanálise ← Voltar ao site

Ensaios & Escritos · Ensaio III

Existir nos intervalos.

Daniela Risso Julho de 2026 6 min de leitura

Há uma ideia que atravessa este espaço — está no manifesto, está no rodapé, está na origem deste trabalho: existo nos intervalos. O que me constitui é também o que está entre mim. Este ensaio é uma tentativa de desdobrar essa frase.

Gostamos de nos pensar como unidades: um eu, uma identidade, uma história com começo, meio e coerência. Mas basta olhar com honestidade para perceber que somos feitos, em grande parte, de relação. Da voz dos que nos criaram, que ainda fala dentro de nós. Dos amores que nos marcaram, mesmo os que terminaram. Das ausências, inclusive — porque o que faltou também constitui. Ninguém se torna alguém sozinho.

A psicanálise leva isso a sério. O sujeito, para ela, não é uma essência trancada dentro do corpo: é algo que se produz entre — entre uma palavra e outra, entre o que se quis dizer e o que se disse, entre o que se recebeu e o que se pôde fazer com isso. Somos, literalmente, seres de intervalo.

O que faltou também constitui.
Ninguém se torna alguém sozinho.

E há os intervalos do próprio viver. O tempo entre uma sessão e outra, em que o que foi dito continua trabalhando em silêncio. O espaço entre o fim de um ciclo e o começo do próximo, esse território desconfortável que chamamos de travessia. A pausa entre a pergunta e a resposta, onde mora a dúvida — e onde mora, também, a liberdade. Nossa cultura odeia esses espaços: quer preenchê-los com estímulo, com tela, com tarefa. Mas é neles que a vida se elabora.

Na clínica, aprendi a respeitar os intervalos. O paciente que precisa de um minuto inteiro de silêncio antes de dizer o essencial. A palavra que só aparece semanas depois da cena que a pedia. O vínculo que se constrói não apesar das faltas, mas através delas — porque é a falta que abre espaço para o desejo. Onde tudo está completo, nada mais se move.

Talvez seja este o convite mais honesto que a análise faz: parar de guerrear contra os próprios intervalos. Contra o que falta, contra o que ainda não se resolveu, contra os espaços em branco da própria história. Não para se conformar — mas para descobrir que é exatamente aí, no entre, que algo novo pode se escrever.

Existir nos intervalos não é existir pela metade. É existir por inteiro num lugar que a pressa não alcança.